Um Milagre de Adoção

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Eram moradores de rua, o pai, a mãe e eles. Os pais dependentes químicos de merla, crack, e thinner. O casal tinha HIV e não se tratava. Um dia a ficha da mãe caiu e ela preferiu procurar um lugar para que cuidassem dos filhos, não aguentava mais  vê-los sofrer. O pai não concordou muito com a ida deles para a instituição, mas aceitou com a condição de pegá-los todo final de semana.

Um era saudável o outro tinha cirrose, não se sabe como ele adquiriu, diziam até que eles davam bebida para as crianças. Chegaram com poucos meses de nascidos. Subnutridos, sujos e mal cuidados. Não foi muito difícil a adaptação deles. Logo se familiarizaram com a casa.

No Vida Positiva de Taguatinga, tínhamos um quarto grande só para os bebes. Lá eles foram bem recebidos e não reclamavam de nada. Dormiam no horário certo, tomavam banho e mamavam. Estavam felizes e sem o frio das ruas. Aquecidos com mantas e com muito carinho por parte de todos. Eles foram crescendo. Que alegria foi ver os primeiros passinhos, as primeiras palavras e a alegria deles.

Os pais tinham sumido. Um belo dia voltaram e começaram a exigir que eles passassem o final de semana juntos. Preocupada, não deixei. O pai nervoso começou a me fazer uma série de ameaças. Resolvi atender o seu pedido. Permiti mesmo contrariada. Iam na sexta-feira à noite e voltavam no domingo. Passei a observar que quando voltavam vinham mais morenos, queimados do sol.

Não demorou muito fiquei sabendo que os pais levavam os meninos para o semáforo. O que tinha cirrose tinha a barriga muito grande, o pai levantava a camisa dele e contava sobre a doença pedindo esmolas. As pessoas compadecidas davam dinheiro e eles compravam as drogas. Fiz imediatamente um relatório comunicando o fato e assim o Juiz suspendeu as saídas de final de semana e também as visitas. Infelizmente os pais ficaram sabendo.

Era próximo do Natal, o portão da casa estava aberto. Tomei um grande susto quando vi João com um revolver na mão colocando na minha testa. Foram momentos de tensão e desespero. Chorava, berrava e dizia que ia levar os filhos na marra. Foi então que Deus me deu o discernimento de conversar com ele, de explicar que  a instituição era melhor para eles. Falei também do amor. Que o verdadeiro amor renúncia para a felicidade do outro. E foi assim que depois de algumas horas ele foi se acalmando. Chorou muito e nunca mais voltou. Meses depois fiquei sabendo de sua morte.

As crianças foram colocadas para adoção. Logo apareceu um casal. Na sua primeira visita percebi que era uma adoção abençoada por Deus, um era a cara do homem  e o outro da mulher. Pareciam que se conheciam já de muito tempo. As conversas fluíam naturalmente e eles se identificaram com o casal com muita naturalidade. Começou então o estágio de convivência. Os olhinhos brilhavam quando o casal, que já tinham uma filha, os buscavam. Confesso que às vezes ficava com ciúmes, mas os pais adotivos também me davam muito carinho, amor e compreendiam a minha situação. Todos nós nos entendíamos.

Chegou então o dia da partida, também estávamos na época de Natal. Tínhamos na sala uma linda árvore, imensa e cheia de “balagadans” natalinos. Os dois corriam felizes ao redor dela, aguardando a chegada dos pais. Eu também estava feliz. Senti a falta deles na ceia de Natal, mas eles estavam para sempre dentro do meu coração. Isso é o que  importava.

O casal sempre os trazem para nos visitar. Eles estão lindos, bem cuidados. O milagre  aconteceu! O que tinha cirrose estava na fila de espera para o transplante, mas com o tratamento superou o problema e não precisará mais operar. Mas se precisasse já tinha uma doadora do pedaço de fígado. A mãe adotiva era compatível. Quem disse que não existem milagres?